"Se eu fizesse tudo o que eu sonho, se eu não fosse assim tão tristonho, não seria assim tão normal"

Vanguart, Mallu Magalhães

quinta-feira, outubro 22, 2009

Porta fechada

Minha janela tem cortinas que voam com o bater suave da brisa do quinto andar. O móbile tilinta a música que os passarinhos não sabem cantar. Eu sento de pernas cruzadas na cadeira da minha escrivaninha e escrevo as palavras imperfeitas dos sentimentos perfeitos que sinto no meu peito despido. Sinto o cheiro dos livros e sinto o cheiro dos galhos do lado de fora da minha janela. O vento tem cheiro, tem aroma no meu quarto. Parece cheiro de grama recém-cortada no inverno quando chove. No inverno não, no outono. Meus olhos se serram de prazer e minha face se ilumina de inocência. Meu cabelo molhado nos ombros faz a redenção dos meus pecados e o sol beija minha face com um raio de luz. E eu pareço perdoada pelos crimes da minha condição humana. Meus olhos molhados de toda a chuva da minha frágil humanidade mostram o que ninguém mais vê, só eu. Meu quarto é meio bagunçado. E meu quarto é tudo o que sinto. É tudo no mundo, é brisa, é vento é sol. É maresia da praia e é luar. É todos meus sonhos falidos, é tudo o que eu sou e é tudo o que eu não sou, é tudo o que eu apenas sonho.

2 comentários:

  1. Tua poesia assim meio em prosa me lembrou Nassar... Raduan Nassar. Que escreveu uma "lavoura arcaica" que segue sendo moderna pelos anos a dentro. Tua linguagem tem uma espécie de lirismo que é das mais raras de se alcançar; consegue-se pela simplicidade sincera de abrir-se o peito e deixar que aflore. Isto eu chamo de inspiração. A transpiração é aquela parte chata de quando a gente não gosta de algumas palavras e fica trocando obsessivamente. Mas isto também faz parte da produção artística. Escrever é muito mais que anotar idéias num papel; é interpretar-se e transcrever o mundo, esse mundo que há dentro de nós, que nunca é o mesmo, a cada dia que passa. Escrever é a arte mais pura, e a minha preferida. Sobre tua escrita, não diria que é feminina, porque estaria diferenciando de outras e não quero ser jamais machista e tampouco feminista; é uma escrita dicotômica (porque fica entre a menina e a mulher) e semiótica (pelo fato de utilizar tudo - o mundo, o eu, os "cabelos molhados" - como símbolo dessa prosa poética. Leia Lavoura Arcaica, você vai se identificar. Abração do amigo e também escritor Renato Giovani.

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