"Se eu fizesse tudo o que eu sonho, se eu não fosse assim tão tristonho, não seria assim tão normal"

Vanguart, Mallu Magalhães

segunda-feira, março 08, 2010

Ilha

Fuja se não poderás levar-me junto contigo no peito
Prometo que por ti sempre restará ao menos respeito
Meu jardim mais bem cuidado será apenas deserto morto
Meu corpo será vestido de dor e meu peito nu de conforto
Juro pelo vento que sopra nunca pedir mais que queres dar
És livre, pode escolher sozinho o caminho que queres trilhar
As cartas velhas joguei todas ao vento esperando por novas
Será que nessa espera não cavei junto as mais fundas covas?

quinta-feira, outubro 29, 2009

Meu nascimento

E um dia eu acordei do meu coma.
Assim pura e simplesmente.
Era como se eu nunca houvesse vivido de verdade.
Como as flores que brotam na relva,
Eu nasci dentro do meu peito.
Eu vi as cores,
Finalmente a escuridão da minha culpa não me cegava.
Finalmente aprendi de fato,
A não me importar com o que os outros pensam.
E como pensam!
Pensam de mais. Falam de mais. Brigam de mais.
Abriguei-me no meu silêncio,
Para que me deixassem nascer em paz.
Libertei-me de todos os meus pecados,
E fiz eu mesma minha redenção.
Já não quero mais ser manchete
Agora que cobram quem sou.
Estou livre de tudo que é invenção do homem,
Estou livre de meus falsos valores.
Posso correr mas minhas pernas tremulas ainda não o sabem.
Posso pensar o que quiser, posso ser quem eu quiser!
E sabe quem dentre todas as pessoas do mundo quem eu escolhi ser?
Eu mesma.

quinta-feira, outubro 22, 2009

Porta fechada

Minha janela tem cortinas que voam com o bater suave da brisa do quinto andar. O móbile tilinta a música que os passarinhos não sabem cantar. Eu sento de pernas cruzadas na cadeira da minha escrivaninha e escrevo as palavras imperfeitas dos sentimentos perfeitos que sinto no meu peito despido. Sinto o cheiro dos livros e sinto o cheiro dos galhos do lado de fora da minha janela. O vento tem cheiro, tem aroma no meu quarto. Parece cheiro de grama recém-cortada no inverno quando chove. No inverno não, no outono. Meus olhos se serram de prazer e minha face se ilumina de inocência. Meu cabelo molhado nos ombros faz a redenção dos meus pecados e o sol beija minha face com um raio de luz. E eu pareço perdoada pelos crimes da minha condição humana. Meus olhos molhados de toda a chuva da minha frágil humanidade mostram o que ninguém mais vê, só eu. Meu quarto é meio bagunçado. E meu quarto é tudo o que sinto. É tudo no mundo, é brisa, é vento é sol. É maresia da praia e é luar. É todos meus sonhos falidos, é tudo o que eu sou e é tudo o que eu não sou, é tudo o que eu apenas sonho.